Conceição do Castelo recebeu, nesta quarta-feira (3), o programa Guardiões da Infância, iniciativa criada pela Assembleia Legislativa (Ales) para combater a violência infantojuvenil. No Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do município, o psicólogo forense Rafael Monteiro ministrou uma palestra para profissionais que lidam diretamente com esses jovens.
A capacitação é uma das ferramentas da iniciativa. Rafael Monteiro fez um apanhado sobre o programa, falou sobre a realidade da violência infantil com o panorama atual, o perfil do abusador e como o abuso se desenvolve, negligência emocional e seus reflexos na sociedade, além da escuta protegida na abordagem inicial.
Agentes de saúde, conselheiros tutelares, assistentes sociais, agricultores e cuidadores sociais participaram da palestra. Autoridades também marcaram presença, como a secretária municipal de Assistência Social, Cleidineia de Fátima Ambrósio; o prefeito, Valber de Vargas Ferreira (PSB) e o vice, Roberto Pessin Desteffani (União); além do deputado Hudson Leal (Agir).
O presidente Marcelo Santos (União) lembrou que na maioria das vezes a criança molestada não dá sinal, ao destacar a importância da palestra. “O sinal maior que ela dá é o silêncio. E como é que você detecta o silêncio? Com a capacitação”. Conforme explicou, a qualificação ajudará o profissional a “enxergar mais e melhor esse silêncio que na maioria das vezes grita muito e a gente tem que ter a capacidade de ouvir”.
A secretária da Casa dos Municípios, Joelma Costalonga, ressaltou o desafio de tratar diretamente com profissionais que lidam na ponta com as crianças e reforçou a necessidade de trabalhar o assunto em rede. “Peço a vocês que saiam daqui hoje dispostos a olhar, a ver o que ninguém muitas vezes vê. E muitas vezes ele vê e não quer enxergar”, completou.
Palestra
Rafael Monteiro apresentou dados sobre a violência entre jovens e adolescentes em diferentes faixas etárias. Também falou sobre os diversos tipos de manifestações delas, como violência física, sexual, institucional, psicológica, virtual, além da negligência emocional.
Conforme apontou, 80% das agressões físicas de crianças até 14 anos ocorrem dentro da própria casa; e 196 crianças são agredidas por dia no Brasil. O quadro, no entanto, é muito pior porque há subnotificação, considerado o maior obstáculo a proteção real desse grupo. “O que você vê é a ponta do iceberg”, desabafou.
De acordo com ele, muitos não denunciam por motivos diversos, como medo, vergonha familiar ou descrença de que a denúncia vai funcionar (quando existe algum tipo de vínculo familiar entre vítima e agressor), e também porque há profissionais sem capacitação para identificar essas situações.
Sobre o perfil do agressor, Rafael Monteiro afirmou que se trata de uma pessoa que raramente é um estranho e os casos de abuso acontecem, na maioria das vezes, com alguém de confiança próxima da criança e da família. Além disso, os abusadores se aproveitam da ausência de supervisão dos pais e responsáveis.
O palestrante alertou que 68% das violências sexuais contra crianças de 0 a 9 anos são cometidas por familiares ou conhecidos. Ainda conforme os dados apresentados por ele, 67,4% das violências sexuais contra crianças e adolescentes acontecem na própria residência vítima. “Nunca a culpa é da criança”, afirmou o psicólogo, “a responsabilidade é dos pais”, completou.
Observar a mudança de comportamento é um dos pontos principais destacados pelo psicólogo, pois, na maioria das vezes, as crianças não expressam com palavras a violência, mas apresentam sinais como marcas físicas, por exemplo, que não condizem com a história contada. Choros, isolamento social e agressividade, entre outras características, também podem indicar algum problema.
“Choros frequentes sem motivo aparente. E a maioria das pessoas tende a pensar que criança chora mesmo. Ué, mas sem motivo? Essa criança sempre foi uma criança descontraída, comunicativa com todos nós, aí agora vive chorando. Isso tem que chamar nossa atenção”.
No entanto, alertou que nem toda violência deixa marcas visíveis, ou seja, a negligência emocional gera estragos em silêncio. Essa negligência torna-se perigosa quando é praticada de maneira persistente por parte dos responsáveis que não atendem às necessidades da criança.
A família, salientou, é o principal ambiente de proteção, mas a escola, ponderou, é o local que pode ver o que ninguém mais enxerga. O psicólogo defendeu que a proteção infantil não é trabalho de um órgão só e depende de uma ação integrada em rede.
Segundo Rafael, qualquer profissional que lida com criança pode fazer a escuta protegida, que evita a revitimização. “A gente não expõe pressão, descrédito, ou pergunta sugestionando a criança na qual ela possa falar aquilo que não aconteceu”. Essa ação é diferente da escuta especializada, feita por profissionais da rede de proteção infantil.
O programa
Lançado em abril deste ano, a iniciativa da Secretaria da Casa dos Municípios atua em parceria com as prefeituras e em três eixos para combater a violência contra crianças e jovens: capacitação dos profissionais; orientação às famílias e ações que envolvem diretamente o público-alvo. A medida também tem um caráter preventivo.
Com o foco na rede municipal, o programa busca fortalecer a atuação integrada nas áreas de educação, saúde, assistência social e conselhos tutelares, além de promover a aplicação de protocolos e encaminhamentos corretos.
Palestras educativas, capacitação técnica, formação de pais e responsáveis, abordando desde a identificação de sinais até a prevenção de riscos, sobretudo no ambiente digital, estão entre as estratégias da iniciativa.
Fonte: POLÍTICA ES








































