O número de veículos cresce a cada ano no Espírito Santo, em especial, na Grande Vitória, e as avenidas e ruas parecem já não dar mais conta de absorver tantos caminhões, ônibus, carros e motos, gerando os famigerados congestionamentos que tanto atrasam o dia a dia do cidadão capixaba. Diante desse cenário, uma alternativa rápida e sustentável vem se popularizando no Estado: as bicicletas elétricas.
Quem aderiu a essa nova modalidade de transporte foi o servidor público Sidney Spacini. Ele costumava fazer de ônibus o trajeto entre sua residência em Itapuã, Vila Velha, e o local de trabalho, na Assembleia Legislativa (Ales), Enseada do Suá, em Vitória. O percurso durava em média uma hora, mas em dia de trânsito mais pesado chegava a duas horas. “Hoje, eu faço em 30 minutos, no máximo 40. Mesmo nos horários de pico, quando tem mais fluxo na Terceira Ponte, ainda assim consigo fazer em 40 minutos”, afirma.
Ele conta que, além da economia de tempo, também passou a se sentir melhor porque, utilizando a bicicleta, pratica exercício durante o deslocamento. A bicicleta dele não é 100% elétrica, é a de “pedal assistido”, ou seja, o motor funciona somente quando se está pedalando. “Eu estou fazendo uma atividade que para mim é prazerosa e que ajuda a manter a saúde, a manter o meu funcionamento cardíaco e que tem me dado muitas experiências positivas”, comemora.
Outro adepto da bicicleta elétrica é o professor universitário Eberval Marchioro. O caminho dele é um pouco mais longo do que o do Sidney; a satisfação com o novo transporte, contudo, é a mesma. Diariamente, ele sai de Praia de Itaparica rumo ao campus de Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), percurso que antes fazia de carro ou ônibus.
Entre os motivos que o fizeram optar pela bicicleta elétrica estão a facilidade de mobilidade; a fuga de ônibus cheios e, muitas vezes, sem ar-condicionado, um problema nos dias mais quentes; e a contribuição para o meio ambiente, pois esse transporte não causa poluição atmosférica.
Eberval também cita a economia com passagens e com combustível, pois o custo de carregar a bateria elétrica é menor.
“Eu faço esse trajeto (com a bicicleta) há praticamente um ano e meio. Eu gastava em média, de carro, dependendo do trânsito e do horário, 45 a 50 minutos. Mas nos chamados horários de pico, esse tempo aumentava em até 35 minutos. Hoje, gasto em torno de 40 minutos”, diz.
Acidentes
Com o aumento do número de bicicletas elétricas nas vias, os acidentes tornaram-se mais frequentes. Segundo o Observatório da Segurança Pública do governo do Estado, de janeiro a setembro deste ano foram 623 acidentes envolvendo esse modal de transporte, com 57 pessoas sofrendo lesões graves e 5 vítimas fatais. A maior parte dos acidentes envolve bikes e carros (269) e Vila Velha lidera o ranking dos municípios com mais acidentes, com 217 sinistros.
No município canela-verde, o Hospital Antônio Bezerra de Faria (HABF) é referência para atendimento de urgência e emergência ortopédicas; por isso, acaba recebendo muitos dos acidentados com as bikes elétricas. O médico ortopedista André Alvim atua na unidade e ressalta que houve um crescimento dos atendimentos nos últimos dois anos.
“A gente está vendo um grande número de adolescentes utilizando a bike elétrica. São pessoas que ainda não têm uma educação formada quanto às leis de trânsito. As escolas hoje em dia estão com os bicicletários cheios de bicicletas elétricas. Agora, em relação a atropelamentos, é muito comum a gente ver um paciente mais adulto”, informa.
Alvim destaca que as partes do corpo mais afetadas são os membros superiores, por causa do movimento natural de quem utiliza veículos de duas rodas de “espalmar” as mãos para se proteger de uma queda. Mas, segundo o médico, também ocorrem lesões mais graves, como traumatismo crânioencefálico, contusões toracoabdominais e lesões da coluna.
“Muitas vezes, o acidente com a bike elétrica assemelha-se mais a um trauma de moto do que a um acidente de bicicleta normal por conta da cinética do trauma. A velocidade é maior, é um trauma de maior energia que vai acabar sendo transmitido ao paciente e que vai acarretar maiores lesões”, explica.
Tanto Eberval quanto Sidney contam que já sofreram acidentes, mas felizmente de baixa gravidade. “Já passei por alguns riscos envolvendo automóveis e sofri um pequeno acidente em um dia que havia chovido e a calçada ficou escorregadia”, diz o primeiro. “Eu caí e quebrei meu braço. Tive que fazer cirurgia. Foi uma experiência muito ruim envolvendo um patinete elétrico que estava em uma posição completamente equivocada na ciclovia”, revela o segundo.
Eles relatam que nem sempre a convivência é tranquila com os veículos, os pedestres e até com os ciclistas de bicicletas convencionais. “Entre motoristas e ciclistas, são um tanto conflituosas, pois, na maioria das vezes, não ocorre o respeito de ambos os lados. (…) Em relação ao pedestre se repete esse conflito devido ao compartilhamento das calçadas, o que poderia ser resolvido com a expansão das ciclovias”, opina Eberval.
“Eu acho que o grande ponto é que a norma do trânsito se aplica a todos os que estão dentro dele. Os motoristas têm que respeitar os ciclistas e os pedestres. Os ciclistas têm que respeitar os pedestres. É sempre quem tem o veículo mais frágil ou quem não está de veículo que tem que ter preferência. A regra do trânsito é clara sobre isso. O ciclista precisa respeitar o pedestre tanto quanto o motorista tem que respeitar o ciclista que está na pista”, complementa Sidney.
Infraestrutura
Fábio Damasceno, secretário de Estado de Mobilidade e Infraestrutura, avalia como positivo o crescimento dos usuários de bicicletas elétricas no Espírito Santo. Entre os fatores que proporcionaram esse aumento, ele aponta a implantação de ciclovias em vias administradas pelo Estado, o que acredita ter dado mais segurança e confiança para os ciclistas.
Nos últimos anos foram construídas ciclovias na Avenida Leitão da Silva, na Rodovia das Paneleiras e no Trevo de Carapina, onde a ciclovia faz a ligação com a Avenida Fernando Ferrari e chega até ao Portal do Príncipe e ao centro de Vitória. Mas o grande marco foi a Ciclovia da Vida, na Terceira Ponte, permitindo aos ciclistas se deslocarem entre Vitória e Vila Velha e ainda aproveitarem o visual da Baía de Vitória, do Convento da Penha e do Morro do Moreno.
“É uma ciclovia estruturada ligando Vitória a Vila Velha, duas grandes cidades da Região Metropolitana, mas isso acabou conectando Serra e Cariacica, pois os municípios começaram a correr atrás. Foi extremamente positivo o crescimento, não só da bicicleta elétrica, mas da bicicleta no mundo. Hoje, a bicicleta faz parte do modo de transporte das pessoas na Região Metropolitana da Grande Vitória”, comemora o secretário.
De acordo com Damasceno, quase 60% das bicicletas que atravessam diariamente a Ciclovia da Vida são elétricas e dados nacionais indicam que o Espírito Santo é o estado que mais vende bicicleta elétrica no país. Ele acredita que fatores como a sensação de segurança e as distâncias relativamente curtas entre as cidades da Região Metropolitana incentivaram os capixabas a aderirem às bicicletas elétricas.
Expansão
Apesar dos investimentos do Estado e dos Municípios, os ciclistas pedem mais ciclovias e ciclofaixas para conectar vias centrais dentro da Região Metropolitana e aumentar a segurança dos usuários.
“No meu caso existe ausência de ciclovia contínua até Goiabeiras. É inadmissível a Avenida Reta da Penha não ter ciclovia, promovendo conflitos entre pedestres e ciclistas mecânicos ou elétricos, pois os mesmos fazem uso do mesmo espaço: as calçadas”, critica Eberval.
Para Sidney, é preciso ampliar a quantidade de ciclovias e acessos às ciclovias existentes. “O grande problema que a gente tem enquanto ciclista é acessar ciclovias porque nem todos os lugares têm entradas de ciclovias e nem todos os lugares têm ciclovias contínuas. Às vezes, a gente tem que dividir pista até chegar às ciclovias e nem todos os motoristas de carros e motos respeitam o ciclista que está dividindo pista. É bem frequente acidentes acontecerem por causa disso”, lamenta.
O médico André Alvim salienta que a expansão das ciclovias e ciclofaixas pode, inclusive, impactar na seriedade dos acidentes, tornando-os menos graves. Para ele, as vias atuais não estão preparadas para a velocidade que as bicicletas elétricas atingem. Como medida de prevenção, o ortopedista orienta a utilização de equipamentos de proteção individual como capacete e luva, e, principalmente, pedaladas com mais prudência e com menor velocidade. “Isso tudo pode não necessariamente evitar o acidente, mas evita que uma tragédia maior aconteça”, reforça.
Damasceno menciona que existem iniciativas em andamento e conversas com municípios para ampliar as ciclovias. Uma delas é dentro do projeto BRT, que liga Vila Velha a Cariacica. Outra é ao longo da Rodovia do Sol, com mais 25 quilômetros ligando Vila Velha a Guarapari, fazendo conexão com a Ciclovia da Vida. Há, ainda, diálogo com Cariacica para uma ciclovia na Avenida Mário Gurgel e na antiga linha férrea da FCA, e com a Serra para uma continuação na Avenida Mestre Álvaro.
Entretanto, o secretário adverte que não adianta o Estado e as Prefeituras fazerem a parte deles no aumento das estruturas se os usuários continuarem desrespeitando as leis de trânsito.
“Ninguém falou que bicicleta elétrica pode andar na calçada. Como qualquer bicicleta, tem que respeitar o Código de Trânsito, tem que andar na via e o carro tem que respeitar um metro e meio de distância. As pessoas estão desobedecendo, achando que bicicleta elétrica pode tudo e não pode, tem que andar na mão certa”, enfatiza.
Também lembra que muitas vezes a administração estadual fica “de mãos atadas” porque a legislação de trânsito é federal e cabe às cidades a gestão do trânsito, a fiscalização e a conscientização dos usuários de bicicletas elétricas. “O Detran vem fazendo algumas ações em relação às bicicletas elétricas, mas somos um pouco limitados, porque o município tem autonomia sobre o trânsito. (…) Precisa ter novas leis, decretos e regras para algo novo como a bicicleta elétrica, mas tem que vir do governo federal e dos municípios”, argumenta.
Qualidade de vida
Mesmo com os percalços, Eberval e Sidney contam que a vida deles mudou com o uso diário da bicicleta elétrica. “A minha qualidade de vida melhorou, pois gasto menos tempo para me locomover, tenho mais mobilidade”, garante o professor. “Minha vida mudou para melhor (…) Eu consigo ver mais da cidade, consigo viver mais a cidade”, conclui o servidor.
Por fim, Fábio Damasceno acredita que em virtude de questões como facilidade de deslocamento e aumento da qualidade de vida o número de bicicletas elétricas vai continuar crescendo e que cabe aos Poderes Públicos a oferta de infraestrutura adequada e o cumprimento das regras de trânsito para garantir a segurança dos ciclistas.
“Na Terceira Ponte a gente tem quase 3 mil bicicletas por dia, final de semana chega a 4, 5 mil bicicletas por dia. (…) A bicicleta, hoje, tem um papel fundamental (na mobilidade da Região Metropolitana). A bicicleta deixou de ser uma microacessibilidade e passou a ser um meio de transporte. Agora, a gente precisa aperfeiçoar e adaptar nossa cidade, nosso Estado a receber esse tipo de tecnologia, esse novo sistema. A China passou por isso, a Bélgica passou por isso, a Holanda, alguns países já passaram por isso e chegou a nossa hora”, finaliza.
Fonte: POLÍTICA ES




































