Em um mundo hiperconectado, a desinformação se consolida como um dos principais desafios da sociedade contemporânea, com impactos que vão da saúde pública à política. Nos últimos anos, a disseminação de informações falsas, usualmente denominadas de fake news, ganhou não só velocidade, mas também sofisticação.
Em 2025, conteúdos falsos produzidos com o uso de inteligência artificial (IA) cresceram significativamente, tornando ainda mais difícil distinguir o que é real do que é manipulado.Os dados foram apresentados no 1º Panorama da Desinformação no Brasil, lançado pelo Observatório Lupa em fevereiro de 2026, que mostrou uma mudança estrutural no ecossistema desinformativo.
Se em 2024, a IA era usada, majoritariamente, para criação de golpes digitais, em 2025 a tecnologia passou a ser empregada de forma estratégica como arma política, um crescimento de 36,4% em relação aos números do ano anterior.
Quase 45% dos conteúdos com IA tinham viés ideológico em 2025, ante 33% no ano anterior. A pesquisa aponta que a desinformação acelera nos momentos de maior tensão pública, sendo que eleições, crises climáticas e eventos políticos de grande monta funcionam como gatilhos claros para picos de conteúdos virais falsos. Quanto maior a atenção pública, mais intensas e virais são as ondas de desinformação.
Sofisticação
Para a doutora em Ciência da Computação e especialista em IA Mariella Berger Andrade, “a inteligência artificial não criou a fake news, mas ela sofisticou bastante esse processo de criação de notícias que não são verídicas. Hoje, é muito fácil você criar um vídeo, uma imagem, um áudio, até uma página de internet com essas notícias, porque esse tipo de tecnologia te permite fazer essa criação”, pontua.
Mariella explica as estratégias utilizadas nesses conteúdos: “Normalmente, a IA se apropria da sua emoção (…). Você tem alguma crença em alguma informação e aparece um vídeo que reforça essa sua crença. Então, ela vem para reforçar algo em que você já acreditava (…). Na emoção, você já viraliza, compartilha, você torna isso uma verdade mesmo sem ser real”, acrescenta.
O jornalista e professor Fabiano Mazzini concorda: “Os mecanismos mais desenvolvidos de IA generativa permitem a produção de qualquer coisa que se queira para enganar as pessoas, dependendo da disponibilidade dessas pessoas em checar as informações”.
Para ele, as notícias falsas têm vários impactos e podem levar a comportamentos perigosos: “As pessoas podem deixar, por exemplo, de se vacinar, podem envolver outras pessoas em uma cena de crime e gerar um ato de violência”, complementa.
Nível de confiança
O professor traz pesquisas recentes do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, demonstrando que o nível de confiança dos brasileiros em notícias em geral está em 42%. É um pouco melhor do que a média mundial, de 40%, mas ele considera um índice muito baixo e um agravante, na medida em que implica em desinteresse por notícias de fontes profissionais.
“Outro dado fala que 57% dos brasileiros, hoje, têm algum tipo de desinteresse pelas notícias (…). Esse desinteresse pode ter várias causas: 46% das pessoas sofrem da fadiga da informação, ou seja, se pode causar desconforto, a informação não será buscada”, salienta.
Mazzini considera que um dos melhores exemplos de como as fake news podem colocar em risco a população de um país inteiro é o movimento antivacina, principalmente como ocorreu durante a pandemia da Covid-19, mas com reflexos também sobre outras doenças que já tinham sido consideradas erradicadas, como a poliomielite (paralisia infantil).
O Ministério da Saúde tem uma campanha sistemática de combate à desinformação, que, segundo Mazzini, “nasce exatamente porque o Brasil concentra 40% do conteúdo antivacina na América do Sul e Caribe”.
O fato de as pessoas se recusarem a se vacinar era impensável há 10 anos, de acordo com o professor, porque o Brasil sempre teve níveis muito altos de imunização: “Por isso a Saúde está gastando recursos do orçamento para tornar o combate à desinformação uma política de saúde pública, porque as pessoas acabam morrendo por causa disso”, aponta.
Impacto eleitoral
No âmbito eleitoral, o jornalista chama a atenção para o esforço do poder público para enfrentar a desinformação, citando como exemplo uma campanha desenvolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por meio da websérie “V de Verdade – Em terra de fatos, fake não tem vez”.
Mazzini sugere que a campanha do TSE ocupe parte do horário eleitoral gratuito: “A gente poderia aproveitar esse momento, que é uma mobilização da sociedade em torno das eleições, e massificar porque é um tipo de mensagem que é útil para os cidadãos e para o eleitor, enquanto ele não recebe uma política pública consistente e duradoura de educação para mídia”, ressalta.
Força-tarefa
O combate à desinformação é considerada pauta urgente, por isso, desde fevereiro de 2025, os três poderes estaduais – Legislativo, Executivo e Judiciário –, juntamente com mais sete instituições, lançaram uma ação inédita no país contra a desinformação, assinando um termo de cooperação para que, de forma coordenada e articulada, possam trabalhar ações estratégicas contra a disseminação de notícias falsas.
Além da Assembleia Legislativa, do governo do Estado e do Tribunal de Justiça, assinam o termo de cooperação o Tribunal de Contas do Espírito Santo, o Tribunal Regional Eleitoral, o Ministério Público Estadual, a Defensoria Pública, além das seccionais do Espírito Santo do Ministério Público Federal, do Tribunal Regional Federal e do Ministério Público do Trabalho.
A iniciativa tem duração prevista de 60 meses (cinco anos), podendo ser prorrogada mediante necessidade e termo aditivo, considerando o impacto das fake news na credibilidade das instituições públicas e na confiança da população.
Responsabilidades
O subprocurador-geral da Assembleia Legislativa, Vinicius Oliveira, alerta para as responsabilidades na disseminação de notícias falsas: “A mentira faz parte da humanidade, a questão é quando a mentira interfere na vida de outra pessoa trazendo consequência. Então, quem produz essa mentira passa a ser responsável pelas suas consequências”, alerta.
Há, porém, um problema, segundo ele: as fakes news ainda não estão tipificadas no Código Penal Brasileiro. “Se não está tipificada, não há lei que a defina como crime. É um princípio da legalidade. Porém, isso não significa que não haja forma de punir. Dependendo da conduta da mentira, do que está sendo dito, pode ser enquadrado, por exemplo, em crimes de calúnia e difamação”, explica.
No âmbito eleitoral, as fake news são, sim, consideradas como crimes: “Está previsto no artigo 323 do Código Eleitoral, que é durante a campanha eleitoral divulgar um fato mentiroso e, nesse caso, pode ser enquadrada a fake news”, pontua.
“E não é apenas a conduta de quem produz o conteúdo mentiroso, mas também de quem o compartilha. Claro que aqui entra o dolo, a intenção de praticar o crime. A pessoa tem que saber que aquele conteúdo é mentiroso e tem que repassar essa informação sabendo que o conteúdo é mentiroso”, completa.
De acordo com o princípio legal de que ninguém pode alegar desconhecimento da lei para não cumpri-la, Vinicius Oliveira recomenda cuidados ao repassar uma informação.
“É o que a gente chama de dever de cuidado, que seria fazer uma trindade da verificação em três pontos principais. Um é a fonte e a data. Você precisa verificar qual é a fonte daquela informação e a data, porque muitas vezes um fato ocorreu há cinco anos e está sendo reproduzido como se fosse hoje. O que pode fazer também é um cruzamento de dados”, diz.
Ele lembra que há diversas ferramentas disponíveis na internet para verificar se a informação é ou não verdadeira. “O TSE tem uma ferramenta chamada Fato ou Boato, você entra lá e verifica se aquela informação coincide. Existem outras ferramentas (…). Tudo o que você puder fazer para essa verificação, então você observa a fonte e a data, faz esse cruzamento de dados. Com essas ferramentas de checagem disponíveis hoje, você ainda pode analisar o estilo daquela informação, que pode indicar sua procedência e veracidade”, disse o procurador da Casa.
Fonte: POLÍTICA ES






































