A importância da comunicação pública para a manutenção da sociedade livre, bem informada e da própria democracia deu o tom das palestras do I Seminário Estadual de Comunicação Pública. O evento, uma parceria da Assembleia Legislativa (Ales) com o Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo (TCE-ES), foi realizado nesta quinta-feira (18) no auditório do tribunal.
A primeira palestra foi realizada pelo professor da Universidade de São Paulo (USP) Eugênio Bucci. O comunicador abordou quatro pontos: verdade factual como pilar da democracia; o papel da comunicação pública como política de Estado; cultura da hipervisibilidade daquilo que é espetáculo; e os desafios das instituições estatais em não cair na autopromoção. Para o professor, o risco que deveria ser mais evidente é o da desinformação corroer a confiança social e fragilizar as instituições.
“Nós estamos vendo isso acontecer. Nós estamos vendo situações em que a informação não resolve a desinformação. Eu não sei se vocês já sentiram isso. O conhecimento não resolve a ignorância. É como se fosse um território blindado. Não adianta vocês jogarem com o dado certo, porque ele não vai entrar, a pessoa não vai acreditar ou não vai aceitar”, alertou.
Bucci defendeu que quem trabalha com a comunicação pública precisa compreender que o poder que emana do povo, ao refletir sua vontade, passa por um grande direito, o da informação. E informação, segundo o palestrante, não seria levar para as pessoas aquilo que o comunicador ou a instituição quer que as pessoas entendam ou concordem. Para o especialista, quando o direito à informação não é atendido, ou se a desinformação prospera, é possível uma pane institucional.
“Vamos pensar que a democracia seja uma máquina. Para que ela gire, para que ela funcione, é necessário que no início, exista o abastecimento do cidadão, ele tenha boa escolha, ele tenha condições (…) é preciso que o poder não tranque a informação, seja transparente. Se isso vai sendo assegurado, a democracia funciona”.
Sobre a comunicação pública como política de Estado, Eugênio Bucci comparou os exemplos de estruturas independentes europeias, como a alemã, que garantem uma entrega realmente provida por recursos públicos, mas com governança independente garantida. “São instituições que asseguram a estabilidade da ordem democrática”. A rede de emissoras públicas na Alemanha contaria com um orçamento equivalente a quatro vezes o orçamento da principal rede comercial brasileira.
Visibilidade
Um ponto crítico refletido durante o seminário foi sobre a cultura da hipervisibilidade, quando uma pessoa não é visível, mas sente a necessidade de ser. “Nós não sabemos o que é a tirania da imagem e a que ponto ela se tornou profunda e dominante. Um adolescente, quando pega um fuzil, vai para a escola e mata nove colegas, e depois se mata, ele quer que pelo menos depois da morte dele, o retrato dele apareça no informe”. Citando a Sociedade do Espetáculo (Guy Debord, 1967), Eugênio Bucci aponta que a visibilidade se tornou mais do que uma forte moeda, mas um fator de organização dos meios de produção. “A visibilidade é dinheiro, mas é dinheiro aplicado, e a visibilidade também, se retirada, como se fosse a morte para a pessoa”.
Sobre o dilema das instituições estatais não caírem na autopromoção dos dirigentes e gestões de ocasião, o comunicólogo afirmou que os desafios no Brasil são descomunais nessa área, apesar da Constituição Federal determinar a impessoalidade da administração pública. Bucci acusou que normalmente a orientação é que seja trabalhado para o mandatário ser aprovado ou reeleito.
“Há uma diferença entre a atitude de perguntar o que o cidadão tem direito de saber e a atitude de responder o que eu gostaria que o cidadão soubesse. O desafio então de fazer isso é educar a alta autoridade. Mas eu vejo hoje, no Brasil, autoridades compreendendo essa questão, promovendo o direito da informação ao cidadão, renunciando ao luxo de se deixar autopromover”, apontou.
Democracia
O crescimento do ódio e da intolerância recente na sociedade, com movimentos autoritários e autocratas, para Bucci, é dirigido e com foco muito específico: vetores da verdade e pilares da democracia.
“Ele normalmente se materializa contra a ciência, contra a imprensa, contra a justiça, contra as artes, contra as universidades. Em todas essas instituições, em todos esses campos epistêmicos, o que se faz é verificar a verdade dos fatos. A justiça precisa saber quais são os fatos com precisão para poder aplicar a lei. Mesmo o órgão de controle precisa entender o que aconteceu de fato”, ilustrou.
Já a imprensa, continua, tem por busca apurar os fatos, “às vezes nem mal, às vezes não tem tudo o que aconteceu, tem imperfeições, tem erros, mas existe para apurar os fatos”. Enquanto a universidade seria atacada por lidar com a verdade dos fatos, a ciência, as artes, seriam atacadas exatamente por trabalharem com a ficção, a criatividade. “Porque a criação artística, a ficção, revela a nossa verdade”.
Povo e proposta
O outro tema que dominou a atenção do seminário foi o case de sucesso que é a Prefeitura de Salvador nas redes sociais. O diretor de comunicação digital, Paulo Vitor Bispo (PV Bispo), apresentou diversas ações promovidas para informar ações da municipalidade, envolver a população da cidade e estabelecer forte engajamento. Para o palestrante, o grande desafio é despertar os interesses das pessoas, pois elas estão naturalmente mais preocupadas em viver a vida delas.
Por serem troca social, as redes devem focar em interação e buscar contato mais próximo do cidadão. Para PV Bispo, igualmente à educação, informação é sinônimo de liberdade, e a importância de uma boa história passa para além do engajamento, mas garantir que a informação chegue e o receptor a entenda com clareza. “O desafio é de fazer troca social em um período desafiador em ter atenção (…). Como falar sobre novo hospital municipal, sobre leis, concorrendo com o que genuinamente vem ganhando o interesse nas redes?”.
Apontando que a comunicação precisa ser encarada como um meio e não um fim, o convidado defendeu que a instituição veja seus canais como estratégicos.
“Não adianta a gente receber informação de que a escola vai ser inaugurada amanhã, e a gente do nada vai tirar isso. A gente precisa entender se será que vale amanhã entregar a escola, ou se será que vale entregar dois dias depois, porque é o dia de aula da escola, ou o dia da educação. Olha como isso muda, olha como a informação fica mais estratégica para o dia que está acontecendo”, exemplificou.
Bispo também alertou da necessidade de trocar “partido” por “proposta” na gestão. “Precisa entender que não é a pessoa, é a instituição”.
“A minha preocupação é construir uma marca de cidade, (…) nosso trabalho foca em construir uma prefeitura, uma instituição sólida, que vai mostrar o jeito soteropolitano de ser”, explicou.
O evento
Para o supervisor de Rádio e TV da Ales, Eduardo Dias, a cooperação entre Poderes e instituições capixabas no combate às notícias falsas busca também o fortalecimento da própria comunicação pública. “Sempre batemos muito nessa tecla, nesse meio de muita desinformação dos últimos tempos, de disseminação de notícias falsas, a comunicação pública está unida em prol de combater essa situação”.
Durante o evento, o presidente do TCE-ES, conselheiro Domingos Taufner, destacou que a iniciativa das instituições vem entregando sua mensagem principal.
“A união de esforços já rendeu frutos concretos, vídeos educativos que estão sendo compartilhados em trabalho coletivo contra a desinformação”. Taufner declarou ainda a torcida de que o aperfeiçoamento da comunicação pública auxilie “a enfrentar com firmeza e eficiência a desinformação que corrói nossas relações sociais em favor de interesses ilegítimos”.
Fonte: POLÍTICA ES








































