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Mulheres na ciência: jornada é marcada por preconceito e desafios

Thamirys, Maria, Julia, Camila e Roberta: mulheres são cerca de 20% entre alunos de STEM na Ufes / Foto: Kamyla Passos

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Reconhecida nas ruas como celebridade e requisitada para fotos com fãs, a pesquisadora Tatiana Sampaio ganhou notoriedade pela descoberta de uma proteína que pode recuperar os movimentos de pessoas com lesões na medula espinhal. Diferente dela, porém, a maioria das mulheres no mundo científico é invisibilizada por desigualdades de oportunidades, sexismo, entre outras formas de discriminação.

De acordo com dados da Unesco, a participação feminina na ciência global é restrita a 35% dos estudantes no ensino superior de STEM (sigla em inglês para ciências, tecnologia, engenharia e matemática).

No Brasil, conforme dados do Ministério da Educação (MEC), as mulheres representam 59,1% (5,9 milhões) das cerca de 10 milhões de matrículas do ensino superior. No entanto, ainda são subrepresentadas nos campos de educação e de trabalho das áreas de STEM.

Levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, com base em dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostra que a presença masculina em cursos das áreas de ciências, tecnologia, engenharias e matemática é muito maior que a feminina. Em 2023, eles eram 74% dos ingressantes e elas, 26%. No entanto, a taxa de conclusão, proporcionalmente, é maior entre as mulheres, sendo elas 27% dos concluintes em 2023, enquanto os homens representaram apenas 23%. 

De acordo com Camila Zacche de Aguiar, professora do Departamento de Informática da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), no Brasil os índices são ainda menores que o cenário mundial. “Quando a gente olha para as áreas de exatas (…) a gente está falando aí de 20% a 25%. Na análise que a gente está fazendo dentro da Ufes, fica na faixa também de 19%, com a mesma tendência nacional”, explica.

Representatividade

Para a também professora da Ufes Roberta Lima Gomes, essa desigualdade começa muito cedo, na educação básica. Meninas idealizam o “brilhantismo” nas ciências como característica masculina, por falta de referências femininas nessas posições. E, segundo ela, isso impacta suas escolhas profissionais. A falta de liderança tanto é fato, que em cerca de 70 anos da Ufes apenas duas mulheres conseguiram ocupar a diretoria do Centro Tecnológico da universidade.


A crença de que as áreas de exatas são masculinas interfere na confiança e no interesse das jovens estudantes em seguir carreira em áreas do conhecimento tradicionalmente dominadas por homens.

A universitária Julia Rangel é um exemplo disso. Desde criança gostava de desmontar e remontar os brinquedos e de observar como funcionavam. Ela também tinha bom desempenho nas disciplinas de exatas, daí optou pela engenharia mecânica. Teve que enfrentar a resistência, inclusive entre familiares. “Teve bastante, sim. E teve muita dúvida também se eu daria conta por acreditar ser um curso pesado para mulher, aquela história. Mas, além desse, outro desafio também foi o de pertencimento (…)  me deparar com uma turma de 45 pessoas e apenas 10 meninas”, conta.

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Já a universitária Thamirys Conceição encontrou apoio na família para ingressar na engenharia de computação, uma área que tem apenas 20% de mulheres, mas sentiu que a discriminação dentro da universidade era real e dura. “Às vezes alguns meninos fazem piadinhas, não levam tanto a sério o nosso esforço, como se a gente estivesse ali e não fosse de fato pelo nosso merecimento, entende? E a gente tem que se provar a todo momento contra isso”, lamenta.


A análise da Maria Eduarda Furtado vai além. Ela disse que a sociedade e os próprios colegas do curso de engenharia mecânica pensam que o estudante da área  precisa ter força bruta. “Muitas vezes vão querer que você também tenha essa força bruta e você tem que mostrar que, olha, eu tenho capacidade, eu tenho qualidades, eu tenho força, mas eu não tenho a mesma força que um homem e eu não preciso usar minha força bruta, sabe?”, reflete.

A estudante também considera que, entre uma “brincadeira” e outra, há meninas do STEM que sofrem sem entender que estão sendo violentadas. “São micro agressões e comentários que eu acho que praticamente todas as meninas já ouviram (…). a  gente só tem noção que aquilo é uma violência quando a gente entende que aquela fala foi pra te agredir (…). Muitas vezes as meninas acham que são experiências individuais, mas são experiências coletivas”, explica.

Recorte de gênero e raça

Além da questão de gênero que impacta a participação da mulher na ciência, há também um recorte de raça. As estudantes negras têm desafios ainda maiores, o que afeta sua confiança e desempenho escolar. Apenas 2,3% das mulheres negras no Brasil concluem o ensino superior em áreas de exatas, segundo o IBGE. 

“Quando a gente toma consciência racial, a gente começa a pensar e a reparar ao nosso redor, o local que nós, pessoas negras, estamos ocupando (…).  Por que pessoas como a gente não estão nesse ambiente? E passa a questionar. Por exemplo, na minha turma, na universidade, você vê que tem pessoas negras que entram, mas a permanência é difícil. As pessoas conseguem acessar, mas não conseguem permanecer”, afirma Maria Eduarda.


Projeto Girls

Justamente com o objetivo de promover ações que garantam maior inclusão e equidade de gênero nos cursos do Centro Tecnológico da Ufes, foi criado, em 2025, o Projeto Girls (Gênero, Inclusão, Resiliência e Liderança em STEM). Uma das estratégias é o apoio à pesquisa e à extensão relacionados ao tema. Outra é a disseminação de dados e práticas, além da realização de ações de conscientização para a comunidade.


“A gente está no ambiente que é majoritariamente masculino. Eu me formei aqui, eu presenciei isso enquanto eu fiz engenharia de computação. Tem algumas décadas, mas para a gente ver como a situação é grave, continua na mesma proporção (…). E a gente percebeu que a falta de um espaço, a falta de um projeto que tivesse como temática o acolhimento e a permanência dessas mulheres contribuía para a evasão desse público (…). Então, a ideia foi criar um projeto que ajudasse a estabelecer políticas, tanto internamente quanto em nível de universidade, para favorecer a permanência”, explica Roberta.

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A professora Camila Zacche de Aguiar, coordenadora do projeto, explica que a própria situação das mulheres no STEM também é objeto de atuação do Girls. “Uma outra frente que nós estamos trabalhando também é na análise de dados (…). Estamos analisando os dados do Inep para a gente saber qual é a trajetória dessas mulheres na educação básica, na educação superior e como a gente pode contribuir através dos dados para ações mais efetivas”.


Busca ativa nas escolas públicas

Conforme estudo da Plan International Brasil, realizado em 2021, as meninas realizam o dobro de trabalhos domésticos que os meninos, e isso reflete na redução do tempo delas para dedicação aos estudos e pesquisas. Justamente por entender essa realidade que alunas da Ufes estão indo às escolas públicas para ajudar as meninas a vencer esses e outros desafios.

“Nós já fizemos ações em escolas públicas para que essas meninas conhecessem mais o que é a área de STEM, o que é uma computação, o que é uma engenharia, e ter também como referência mulheres nessa área. Porque muitas vezes as meninas que estão na escola fundamental, na base, elas vêm de uma educação que já limita suas oportunidades. A nossa ideia é elevar um pouquinho da nossa trajetória, da nossa experiência, das referências de pesquisa”, explica Camila.

Participação em Olimpíadas

No Brasil, apenas 14% das bolsas de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) são concedidas a cientistas mulheres. Estudantes e professores das áreas STEM acreditam que as desigualdades só vão reduzir com intervenções na educação básica por meio da criação de programas de mentoria; incentivo às meninas em feiras de ciências e clubes de robótica; política de incentivo com bolsas e financiamento de pesquisas lideradas por mulheres. 

Segundo o Movimento Meninas Olímpicas, apenas 10% de meninas são premiadas nas principais olimpíadas científicas do Brasil e menos de 5% nas olimpíadas internacionais. No Parlamento capixaba, a deputada Iriny Lopes (PT) criou o Prêmio Meninas Olímpicas para incentivar e reconhecer a participação de alunas de escolas públicas em olimpíadas científicas, especialmente as indígenas e afrodescendentes. 
 


“Eu conheço de perto a dificuldade das mulheres que querem se dedicar à pesquisa e à ciência. E a gente sabe que essas olimpíadas estimulam a participação de meninas e jovens (…), é uma forma  de irem se preparando para exercerem seu direito de ser uma mulher cientista e seguir o exemplo que tivemos aqui recentemente. Nós tivemos aqui no Brasil uma mulher que mostrou que quando tem condições de trabalho, quando ela é respeitada, ela produz”, conclui a deputada.

Fonte: POLÍTICA ES

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