Considerado o mais importante pintor capixaba, o cachoeirense Levino Fanzeres brinda os visitantes da exposição 190 Caminhos da Cidadania com diversas obras pertencentes ao acervo da Assembleia Legislativa (Ales). Uma delas – “A Partida de Arariboia” – ganha destaque por dois fatores. O primeiro, as dimensões, pois se trata do maior óleo sobre tela do estado. O segundo tem relação com a história da cena registrada, da escolha do tema e do trabalho de restauração.
Com 4,75 metros de largura e 3,26 metros de altura, o quadro pesa aproximadamente 600 quilos e relata uma cena do século 16: a partida do cacique e seus guerreiros, exímios canoeiros e nadadores, para ajudar os portugueses na expulsão dos franceses, aliados dos Tamoios, da Ilha de Villegagnon, na baía de Guanabara. O cenário retratado é o litoral do município de Vila Velha de então.
Vice-almirante francês, Nicolas Durand de Villegagnon e centenas de franceses desembarcaram na baía de Guanabara em 1555, ou seja, 55 anos após a chegada dos portugueses ao Brasil. O objetivo era ajudar na fundação da França Antártica, no atual município do Rio de Janeiro. A ilha onde foi construída a fortaleza leva o nome do militar e sedia a Escola Naval da Marinha do Brasil.
O registro do acontecimento – que envolve a ida do cacique Temiminó “Cobra Feroz”, tradução de Arariboia do Tupi, e o desfecho favorável da batalha em favor dos portugueses em 1567 – é resultado de uma encomenda que partiu da Assembleia Legislativa para que o Espírito Santo participasse da Exposição Nacional no Rio (capital do Brasil na época) em comemoração ao centenário da Independência em 1922.
A encomenda
Conforme o livro “Acervo Artístico e Histórico da Assembleia Legislativa” (2004), a escolha de Fanzeres para executar uma obra que valorizasse a história capixaba foi feita antes mesmo da decisão acerca do tema e partiu do Congresso Legislativo do Estado do Espírito Santo. Mesmo radicado no Rio desde criança, o cachoeirense vinha com frequência às terras capixabas para expor seus trabalhos.
O artista havia frequentado a Escola Nacional de Belas Artes e estudado em Paris em uma época na qual pintores locais eram autodidatas. A Escola de Belas Artes do Espírito Santo só seria fundada em 1951.
“A ideia de encomendar ao artista uma obra de natureza histórica começara a ser discutida em 1920, quando a proposta foi apresentada à 15ª Sessão Ordinária do Congresso Legislativo do Estado do Espírito Santo, em 18 de dezembro daquele ano (…)”, por meio do Projeto 25, descreve o Acervo da Assembleia na página 22.
Sete dias mais tarde, já no Natal, os deputados debateram o Projeto 27, cujo parágrafo 5º estabelecia que o governo do Estado ficaria responsável por contratar Levino Fanzeres para realizar “um quadro em grande formato, nunca inferior a 3×4 metros, em tela artisticamente emmoldurada, sobre motivo da história do Espírito Santo no cyclo épico da fundação da Capitania (…)”, aponta a edição do Diário da Manhã de janeiro de 14 de janeiro de 1921 (página 24 do Acervo).
Debate em torno do tema
Se a escolha do pintor não enfrentou resistência, o tema, por sua vez, gerou debates entre intelectuais que compuseram uma comissão formada com esse propósito e estabelecida no Projeto 27. A indecisão gerou ansiedade a Fanzeres. “A Partida de Arariboia”, sugerida por Alarico de Freitas, deputado estadual na época, acabou logrando êxito sobre outras figuras notáveis da história capixaba, como Domingos Martins e Maria Ortiz.
A concorrência, sobretudo com Domingos Martins, não foi fácil, sobretudo porque os feitos do herói capixaba, incluindo a sua execução na luta pela liberdade, relacionavam-se naturalmente à Independência do Brasil. Coube a Alarico levantar dados biográficos e históricos sobre o cacique Temiminó para provar, inclusive, que não se tratava de uma lenda.
Um dos pontos que geraram mais resistência em torno da escolha de Arariboia foi o seu local de nascimento. Na época, Alarico afirmou ter encontrado, no Instituto Histórico do Rio de Janeiro, “um documento que prova exuberante ser Ararigboia filho daqui e não do estado do Rio”, de acordo com a edição de 24 de abril de 1921 do Diário da Manhã, registra o Acervo da Ales.
Para o arqueólogo capixaba Henrique Valadares, a origem do cacique é inconclusiva, com “mais elementos contra do que a favor”. Ele ressalta, no entanto, que a organização da defesa principal contra os franceses se deu aqui. “Sem o apoio dos Temiminós não haveria vitória sobre os franceses. Da mesma maneira que, sem o apoio dos Tamoios lá (no Rio), os franceses não teriam entrado”, resume.
Entre a realidade e a fantasia
Outro forte concorrente a ser contemplado pela pintura – e inicialmente preterido – foi o padre José de Anchieta, uma das figuras centrais para a formação da sociedade capixaba no período colonial. Anchieta acabou compondo a obra depois que a comissão, com a anuência do artista, decidiu por incluir na cena o hoje santo, praticamente frente a frente com o herói indígena.
Pelos registros históricos a presença de Anchieta na partida dos cerca de 200 Temininós para o Rio foi descartada pelo próprio Alarico de Freitas. No entanto, a inclusão do sacerdote revelou uma espécie de “força mítica”, além da tentativa de interligá-lo à obra de Antônio Parreiras, “O Evangelho na Selva”, de 1920. O quadro também pode ser visto na exposição.
O tema só é sacramentado com a entrada do jesuíta em cena, tal como “um ente legitimador”, explica o “Acervo Artístico e Histórico da Assembleia”. O contrato para a pintura foi firmado em 28 de maio de 1921 entre o governo do Estado e Fanzeres, no valor de 5 contos de réis. Depois da exposição no Rio, entre setembro e dezembro de 1922, os capixabas puderam apreciar a obra na Avenida República, em Vitória. Antes de ser integrada ao acervo da Ales, passou pelo Palácio Anchieta, sede do governo.
Anos mais tarde, em 1951, o Legislativo estadual concedeu ao pintor a importância de 100 mil cruzeiros como forma de homenageá-lo. Em contrapartida, Levino Fanzeres presenteou a Assembleia Legislativa com outra obra, “A Ressureição de Lázaro” – outro quadro exposto nos 190 Caminhos da Cidadania.
Restauração
A “Partida de Arariboia” passou por pelo menos duas restaurações ao longo de sua criação. Uma na década de 1970 e a última, que data entre 1992/1993, feita pelo renomado pintor Kleber Galvêas, hoje com 79 anos, 60 dos quais dedicados a pincéis e telas. Galvêas lembra tanto do processo de recuperação quanto do estado da obra quando assumiu o trabalho.
Segundo conta, o quadro costumava enfeitar a parede da sala da Presidência da Assembleia antiga. Mas com o passar do tempo e, por falta de cuidados, a obra começou a se deteriorar. Então, foi retirada da armação de madeira, enrolada e deixada no porão da Casa legislativa quando ainda funcionava no centro da capital.
E lá foi colocada em cima de dois armários e sobre ela uma máquina de datilografar e outros processos. O peso exercido pelos objetos acabou achatando o rolo. “Então, de palmo em palmo a tela se quebrou”, resume Galvêas.
Kleber assumiu a incumbência de fazer a restauração de Arariboia depois de ganhar respeito do então presidente da Ales, Dilton Lírio, que lhe encomendou a recuperação de outra obra de Fanzeres: “A Ressurreição de Lázaro”. Além de um rasgo, essa tela tinha outro grande problema: “Quem pintou o lado esquerdo não pintou o lado direito”, confidencia.
Conforme diz, Dilton “morreu de medo” que a tela se desmanchasse no processo, mas o bom trabalho de recuperação, usando giz e luz ultravioleta para demarcar a área mal repintada, abriu caminho para que o pintor restaurasse praticamente todas as obras da Casa, não só as pinturas. “Crepúsculo”, outro óleo sobre tela de Fanzeres, também foi reparado por Kleber e pode ser visto na exposição.
Desafios
Devido às dimensões, Kleber teve que adaptar seu ateliê, na Barra do Jucu, em Vila Velha para recuperar “A Partida de Arariboia”. Depois de construir um depósito de grandes dimensões para acomodá-la, trabalhou com mais cinco profissionais, por um ano e 20 dias, para trazer à tona a originalidade da cena. “Sendo que sete meses foram para desfazer a pintura que um pintor havia feito”, critica.
Tratava-se de um desafio, pois o Núcleo de Conservação e Restauração da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) chegou a emitir documento – que ele guarda até hoje – atestando que não tinha como fazer o trabalho “porque não tinha espaço”. “Pelas dimensões, né”, responde o pintor ao ser perguntado se foi o quadro que lhe deu mais trabalho na recuperação.
O longo trabalho está registrado em um dossiê que o artista guarda em seu ateliê. A documentação mostra o passo a passo da restauração, utilizando a técnica de encáustica. “Quando a gente fez a restauração, a gente conseguiu recuperar o penacho de grandes dimensões que o Fanzeres pintou. Mas teve gente que achou que a gente exagerou no penacho. Mas a história, está lá registrado, que o penacho do Arariboia era exagerado”, enfatiza.
Outro problema identificado foi a cobertura de um buraco que havia na tela. O estrago teria sido causado por “um soldado do grupo que invadiu a Assembleia, quando da Revolução de 64, para intimidar os deputados”, revela Kleber. O buraco teria sido causado por uma baioneta calada (com uma faca na ponta do cano), segundo informação que atribui a um diretor de uma grande rede de TV do estado.
Sobre a cena retratada, Kleber afirma não ter dúvidas: “Essa partida aconteceu ali na Prainha”, pontua. “Dá nitidamente para a gente ver os contornos da Prainha de antigamente porque agora aterraram tudo”, explica. “Só tem uma mulher na cena, que supõe-se que seja a mulher de Arariboia, que está sentada e muito triste”, sugere.
Levino de Araújo Vasconcelos Fanzeres (1884-1956) é um dos 11 artistas cujas obras compõem a exposição, em cartaz até final de agosto, no Pilotis da Assembleia.
Exposição
A exposição 190 Caminhos da Cidadania é fruto de pesquisa realizada por meio de convênio entre a Ales e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Reúne fotos, documentos e mobiliários antigos, bem como pinturas do acervo do Legislativo e obras contemporâneas, entre outros.
A mostra, que ocupa uma área de 700 m2 no pilotis da Ales, foi viabilizada graças a recursos captados por meio da Lei Federal de Incentivo a Projetos Culturais (Lei Rouanet) e conta com patrocínio da Vale, Grupo Autoglass, ArcelorMittal, Banestes, Itaú e Bandes.
Serviço – Exposição 190 Caminhos da Cidadania
Local: Assembleia Legislativa (Av. Américo Buaiz, 205 – Enseada do Suá)
Visitação: segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas
Entrada gratuita
Fonte: POLÍTICA ES







































