A uma plateia formada em grande parte por jovens estudantes, a Comissão de Cultura e Comunicação Social da Assembleia Legislativa (Ales) realizou audiência pública nesta quinta-feira (11), no Plenário Dirceu Cardoso. Por quase quatro horas, políticos e professores debateram questões envolvendo a influência das redes sociais e as ameaças que elas podem representar ao regime democrático, ainda mais em ano eleitoral.
Para a presidente do colegiado, deputada Iriny Lopes (PT), a democracia, a vida e a soberania estão em risco em função de determinados interesses. Ela disse que garantias individuais de cidadãos não estão sendo exercidas na íntegra devido a uma luta político-ideológica profunda. “Vemos uma ascensão do neofaciscmo e nós vemos uma ultradireita extremamente organizada no Brasil e no conjunto do planeta”, refletiu. De acordo com a parlamentar, esse movimento busca “ser hegemônico no próximo período” e objetiva “desestabilizar a sociedade, descredibilizar as instituições, instalar a desconfiança”.
Poder das redes
A deputada também fez um alerta sobre a desinformação e manipulação na internet. “Todo mundo no Brasil praticamente tem acesso a um aparelho de celular, mas não sabe exatamente como aquilo está sendo usado contra a democracia, a soberania dos países e especialmente quanto à convivência entre os seres humanos nesse período que exige de cada um de nós muita atenção”, sublinhou, acrescentando o poder da comunicação em disseminar o ódio entre famílias.
Ex-presidente da Assembleia Legislativa (Ales), Cláudio Vereza (PT) lembrou que viveu a época do rádio, o início da televisão, do telefone fixo, a internet da era do e-mail e sites, nos anos 2000, ainda sem as redes sociais, período que teve a “luta pela democratização da internet”, quando “já havia um movimento contrário ao que hoje a gente chama de fake news”.
“A gente sonhava que a internet ia democratizar o domínio das redes de TV. E democratizou. Porém, democratizou para todo mundo, para quem quer enganar e para quem quer educar, formar cidadãos. Só que naquele início a gente achava que era uma maravilha, que era o suprassumo da tecnologia chegando em casa sem precisar ter um canal aberto da TV”, revelou.
Para o ex-deputado estadual Perly Cypriano (PT), a geração atual deve entender a importância da democracia e a necessidade de combater posicionamentos políticos que a coloquem sob ameaça.
O professor da UVV José Luis Bolzan de Morais analisou o que chamou de naturalização dos riscos à democracia, sobretudo em ano eleitoral. “A cada dia que passa nos chamará mais ainda a luta pela manutenção daquilo que foi uma conquista, mesmo que não completa, que nós tivemos com o fim da ditadura militar”, opinou.
Reitor emérito da Ufes, Reinaldo Centoducatte considerou o tema do evento importante do ponto de vista acadêmico para entender, trabalhar e conviver com essa nova fase do mundo. Na opinião dele, é imprescindível colocar as big techs sob o controle estatal. “Hoje qualquer pessoa sem produzir nada monetizando, a sua ação através dessa nova estrutura obtém riqueza, mas transfere muito mais riqueza para aqueles que (…) os controlam”, pontuou.
Tecnoconservadorismo
O professor da UVV Pablo Ornellas Rosa abordou o tema “tecnoconservadorismo e movimentos extremistas de direita”. Segundo ele, a concentração de dados pessoais por grandes empresas na era atual possibilita modular o comportamento humano, constituindo, na opinião dele, o grande ativo do capitalismo atual. “O que eu chamo de tecnoconservadorismo nasce justamente neste contexto no qual essas big techs passam a modular nosso comportamento a partir do excedente de dados que a gente disponibiliza a cada segundo, a cada movimento que a gente dá no mouse”, detalhou o doutor em Ciências Sociais.
De acordo com ele, esse movimento fez com que as plataformas digitais participem da política no século 21. “Ou seja, a dimensão tecnopolítica, que a política passa a incorporar paulatinamente até culminar com essa democracia digital”.
Outro ponto frisado é que as big techs não são neutras. “O Google, que a gente usa para fazer uma busca, não é neutro. O Google nada mais é que uma empresa de publicidade que entrega para gente aquela pesquisa que a gente faz daquele conteúdo que mais pagou para que ele apresente para a gente. O Google é enviesado, assim como as IAs (inteligências artificiais), assim como todas as tecnologias que foram criadas por seres humanos”, afirmou.
O pesquisador contou que acompanha e monitora grupos de Whatsapp da extra direita e disse que eles vão se radicalizando em decorrência do próprio modelo de funcionamento das plataformas digitais, com a possibilidade de ganhar dinheiro produzindo “discurso de ódio”. “Quanto mais radicalizado o discurso, maior o alcance”, enfatizou. Ele também citou livros que, segundo disse, avalizam essa agenda antidemocrática, e defendeu a regulamentação das plataformas.
Desinformação nas redes
O debate político nas redes e a desinformação foram pontos abordados pela pesquisadora Marialina Côgo Antolini. Segundo a convidada, essas “arenas” de discussão, como a internet, são tomadas pelo capitalismo com a finalidade de gerar lucros. “Agora a gente tem um punhado de empresas que controlam quais narrativas chegam na gente”, observou. “E também quais histórias nós não vamos ouvir”, complementou a PhD em Informação e Mídia pela Universidade de Michigan (EUA).
Outro ponto tem relação com as big techs, que criam tecnologias advindas “de países que dominam o resto do mundo pelo seu poder econômico”. Por consequência, eles acabam criando o poder simbólico e de criar narrativas que colocam os países do norte global como referência. “A tecnologia não é desenvolvida para a gente, para ser usada no Brasil”, assegurou, “é desenvolvida para quem está na Europa e Estados Unidos”, acrescentou.
A realidade brasileira polarizada, segundo a convidada, contrasta com outros países. “A gente como país, assim como Argentina, como o Chile, e outros países latino-americanos, a gente tem um apoio muito grande da população de maneira geral a movimentos antidemocráticos”, argumentou.
Falando sobre política eleitoral, em um questionário realizado por ela, os app de mensagem são mais associados a atitudes conservadoras do que outras redes como Instagram e YouTube. “Um achado interessante foi que o Instagram e o YouTube vieram associados com uma visão mais moderada e mais crítica ao movimento antidemocrático”, revelou, mostrando como o consumo de conteúdo muda de uma plataforma para outra.
“Quando a gente fala de um ambiente polarizado, a gente pensa em um extremo e no outro e a gente se esquece que a grande parte da população está no meio”, ponderou. Diante disso ela levantou uma questão: “O que a gente espera dessa próxima eleição? Como é que a gente pode trabalhar as redes quando a gente está falando do debate político-eleitoral?”, indagou.
A pesquisadora explicou o conceito de “plataformização da vida”. “Significa que não dá para dizer que usar a rede social é opcional, não dá para dizer que eu posso escolher não usar o gmail. Não existe mais isso. O Google faz parte da operação de escolas do mundo inteiro”, contou. “Vários ministérios do governo federal do Brasil usam o Teams, que é uma plataforma da Microsoft”, exemplificou.
Diante dessa realidade, Marialina questionou a dependência das pessoas no contexto das big techs. “Isso virou infraestrutura de sociedade”, enfatizou a convidada ao defender a regulamentação dessas plataformas. “Não existe neutralidade na tecnologia, não existe neutralidade na ciência, não existe neutralidade na mídia em geral”, frisou.
De acordo com ela, é duro ouvir que as big techs estão “tomando conta do mundo”, ao relatar vários casos de violência que acontecem on-line. No entanto, ponderou que muitas vezes as redes apresentam um lado positivo, pois nelas as pessoas encontram informações que não têm em casa ou que chegam de maneira enviesada na escola.
Internet, jovens e oportunidades
A coordenadora nacional do Coletivo Levante da Juventude, Fernanda Moreira, apresentou um olhar sobre a importância da juventude na disputa pelas ideologias políticas.
“A juventude se torna estratégica porque ela vai buscar reivindicar, ser contrária a valores que já são impostos a nós, não necessariamente centralizada em algum tipo de ideologia”, mencionou a estudante de Serviço Social da Ufes. Para Fernanda, a relação dos jovens com a internet não pode ser simplificada. “A gente tem um senso crítico”, garantiu.
A representante da Associação do Território Indígena Tupinikim e Guarani Lara Evellin Pêgo de Souza falou sobre a política indígena nas redes sociais. “As redes sociais nos permitem ocupar esse espaço para divulgação da nossa cultura, denunciar violências que a gente vem sofrendo durante muito tempo”, relatou. “Nós utilizamos as redes para combater também os estereótipos”, comentou.
A convidada declarou que a comunicação indígena precisa se fortalecer, apesar das dificuldades. “Mas a gente vem conseguindo abrir essas barreiras para poder fazer melhor divulgação da nossa história, cultura, das nossas vivências de fato”, completou a jovem.
O professor da Ufes Edgard Rebouças voltou o olhar para a regulamentação das plataformas da internet. “A gente perdeu os limites do absurdo, da normalidade, aí dá espaço para esses movimentos todos, do (Brasil) Paralelo, do Redpill”, opinou o convidado. “Se a gente fosse regulando alguns desses procedimentos a gente já teria avançado processos civilizatórios muito melhores para a sociedade hoje”, realçou o doutor em Comunicação Social.
Mesa de autoridades
A mesa do evento contou com a presença também dos professores Guilherme Henrique Pereira e Fabio Gouveia. Ao fim das exposições, os participantes puderam contribuir com apontamentos e questionamentos aos palestrantes.
Fonte: POLÍTICA ES








































