Respeitar, incluir e garantir o envelhecimento saudável são responsabilidades de toda a sociedade para com a sua parcela já idosa, que no Brasil reúne pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. Esse segmento vem crescendo de modo destacado nas últimas décadas. No Espírito Santo a população idosa aumentou em 73,1% entre 2010 e 2022, conforme panorama traçado pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) em 2024 com dados do Censo 2022. Eram pouco mais de 364 mil, chegando a 637 mil idosos em 2022. A estimativa do IBGE para 2026 é 731,3 mil, 17,6% da população capixaba.
Mas o que esperam da sociedade as pessoas que estão nessa faixa de idade? A professora universitária aposentada Bernadete Mian completou 86 anos em junho de 2025 e gosta de enxergar a vida sob a perspectiva de que o importante se mantém. Quando questionada sobre o que é “alegria na vida idosa”, Bernadete busca a resposta na infância.
“Sempre fui uma menina alegre, nasci no interior, em Itaguaçu. Muitas oportunidades de participar de teatro, parada de 7 setembro. Sempre gostei muito de poesia, declamo até hoje”, conta.
Órfã de pai aos 8 anos, Bernadete diz que nunca foi uma criança triste, vivendo em comunidade sempre com muitas festas, receita que aplica agora na fase idosa, sem se “amedrontar” pela leitura que a sociedade ainda insiste em fazer da terceira idade.
“Eu tenho uma velhice feliz e isso me dá força pra viver eternamente feliz. Procuro aliviar porque a gente sente o preconceito, a gente tem sentimentos, mas eu tento compensar com outras coisas. Eu faço coral, ginástica, participo do sindicato, assembleias, grupos de trabalhos, congressos e convivo com amigos professores universitários do Brasil inteiro”, revela.
Para a capixaba, o idoso não pode ficar solitário. “Se ele ficar solitário, ele adoece e morre”, sentencia. Já sobre a valorização ou não que o brasileiro reserva aos mais velhos, ela lamenta que a sociedade como um todo “descarta o aposentado, mas também a gente tem que se impor”.
Longevidade
Para a geriatra Daniela Gonçalves Barbieri, chegar com qualidade a essa fase da vida envolve múltiplos fatores. “Quanto mais a gente atinge longevidade, mais desafios pode haver e mais influência a gente tem das escolhas que a gente faz ao longo da vida”, aponta.
“A genética, ela influencia também, mas o ambiente e os nossos hábitos, eles têm um impacto muito maior sobre a qualidade da saúde no envelhecer. Se chegar aos 60, 70, 80, é uma coisa. Se chegar aos 90, aos 100, aos 110, quem sabe aos 120, pois estamos realmente superando limites, chegamos precisando de vários recursos para conseguir se manter bem”.
Maria Aparecida Pitol Ferreira, 79 anos, tem a caminhada como uma rotina há quatro décadas. Mas foi aos 65 anos que ela já aposentada começou a correr e, com 70 anos, participou de uma meia maratona. “E o resultado foi muito bom, eu fiquei superfeliz, jamais pensei em fazer uma. E não parei mais de correr”, afirma.
Em 2023, Maria Aparecida disputou a São Silvestre em São Paulo, “um sonho”, e a Volta da Pampulha, em Minas Gerais. Já em 2024 com 77 anos, “um ano de corrida maravilhoso”, mais duas meia maratonas, em São Paulo e Vitória. “As corridas de 10 km aqui de Vitória já fiz muitas”. No final de 2024, preparando-se para disputar novamente a Pampulha, acontecimentos inesperados: uma hérnia de disco, pé quebrado e fisioterapia. “Mas eu não desisto. Aí na hora que eu estou bem, eu volto. Estou sempre retornando, eu nunca desisti”, conta.
Bernadete concorda com Maria Aparecida e reforça que a qualidade de vida passa por um conjunto de fatores que ela própria busca manter conectados na rotina.
“Qualidade de vida na terceira idade, antes de tudo, é cuidar muito bem da alimentação, muito bem do corpo, da mente e também (ter) ciclo de amizade, isso faz muito bem! Grupos, participo de vários e isso reforça muito a gente (…) saraus, festas de aposentados, piqueniques, grupo de ginástica em centro de vivência com todo tipo de idoso”, afirma a professora aposentada.
Também para Maria Aparecida, as prioridades são vida comunitária, saúde e alimentação. “Eu acho que o maior erro do idoso é ele se isolar. Normalmente a pessoa se aposenta, dentro de casa, e vai se isolando, vai ficando sem amigos. Mas eu convivo com gente nova, criançada, de 18 até 45, 50, 60 anos”, aponta.
Correndo três vezes por semana e outras três na academia, ela coloca o fortalecimento físico crucial para a mobilidade do idoso como um todo. “Eu só não corria antes, porque não dava tempo”. “Se eu te falar que eu sinto dor, essas dores que todo mundo reclama, eu estou mentindo, que eu não sinto dor em lugar nenhum”.
Maria Aparecida trabalhou com adolescentes por 42 anos e se aposentou aos 64. “Uma coisa que eu falo para as minhas amigas quando se aposentam, ‘olha, não cometa o erro que as pessoas cometem. Quando a gente se aposenta, a gente se aposenta do trabalho, da vida, não. A vida continua’”, enfatiza.
Envelhecimento ativo
A geriatra Daniela Barbieri ressalta a importância de ter consciência do que é de fato um “envelhecimento ativo”. “É aquele envelhecimento que não é sem doença, mas em que as doenças estão bem controladas, em que os sintomas estão dizimados e que há uma real participação social, em que a pessoa tenha seu espaço, suas funções, se sinta pertencente. Não precisa necessariamente ser produtivo financeiramente, mas que ele tenha propósito de vida, que tenha motivação, que tenha um papel social”, destaca.
A existência ativa dessa parcela da sociedade passa pela quebra do preconceito. A promoção de uma sociedade inclusiva para todas as idades é o objetivo da Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), instituída pela ONU e liderada nas Américas pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). São quatro as áreas de atuação: mudança na forma de pensar e enquadrar o envelhecimento; comunidades promovendo as capacidades da pessoa idosa; serviços de cuidados integrados e de atenção primária focados no segmento; e acesso a cuidados de longo prazo aos idosos que necessitem.
Daniela Barbieri defende que o rompimento do etarismo e a percepção daquilo que há de bom em envelhecer gera interação maior entre as gerações, gerando “troca rica”. “Porque o adolescente, o jovem, tem uma vivência diferente da pessoa de meia-idade e diferente da pessoa idosa. Um pode acrescentar muito no conhecimento, na vivência do outro e mesmo na criatividade. Ter uma proximidade maior entre as gerações é muito saudável para todo mundo”, pontua.
Já o inverso, o isolamento social, aumenta o risco de doenças como a depressão e processos acelerados de demências. “Uma sociedade preparada para o envelhecimento garante um futuro melhor para ela, mas para isso é (necessário) acolher melhor a pessoa que é idosa hoje e está enfrentando dificuldades”.
Direitos e deveres
Deixar de lado a pessoa que vai se tornando “mais frágil, esquecida, e vulnerável” agrava a situação e é uma irresponsabilidade legalmente enquadrada, lembra a advogada Lilian Gláucia Herchani, membro da Comissão de Direito da Pessoa Idosa da OAB-ES.
“Aquela família que não tem olhos para a pessoa idosa da família e não dá atenção devida. O Código Civil traz uma repreensão e uma necessidade de dizer ‘família, você tem obrigação’. Não é um favor. Não é um carinho, não. É uma obrigação”.
Para a advogada, também idosa, o Brasil ainda “engatinha” na garantia de direitos da pessoa idosa. “Somos considerados um país jovem e temos a ideia de que as pessoas idosas são descartáveis. Ainda temos essa concepção. Estamos mudando essa cultura, mas isso tudo é um caminhar. Mudança de cultura leva tempo, porque a questão do etarismo é ancestral e cultural”, opina.
Mostrar a cara é essencial, afirma Bernadete. A postura do idoso, para ela, é importante no processo de reeducar a sociedade e, de fato, “rever a presença da pessoa idosa”. Segundo a aposentada, a sociedade ainda teima em desrespeitar o basilar direito à fila preferencial. “Ainda vejo muito a falta de respeito quando a gente está numa fila”, fala.
Violações de direitos
A violência familiar ainda é o principal desafio na vida idosa. Outra preocupante violação de direitos é o de golpes envolvendo instituições financeiras, explica a advogada Lilian Herchani.
“Existe um enorme número de processos por essas violações. Tanto no seio familiar, quanto das instituições financeiras com relação às aposentadorias das pessoas idosas. E há uma potencialização do digital nesses golpes. E com esse mundo mais digital, a pessoa idosa acaba ficando mais vulnerável”, ressalta.
“Ela acaba tendo medo de praticar o exercício do direito dela, do uso desse mundo virtual, desse mundo digital. Porque ela é frágil. Ela tem muitas fragilidades. O pensamento é mais lento, a coordenação é mais lenta. Tudo que uma pessoa idosa recebe de informação não pode ser na velocidade da máquina. E aí vem essa necessidade de conhecimento, de inclusão”, pontua a advogada.
Levantamento do IJSN e dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública apontam que em 2025 o ES registrou mais de 5 mil casos de violência contra idosos, com 6 a cada 10 ocorrendo no ambiente doméstico.
Idoso e o virtual
A geriatra e a advogada concordam com o fato de que as pessoas idosas estão inseridas no mundo virtual, mas não foram preparadas para isso. “Como eu atuo? Como eu me previno? Como eu me protejo de um golpe? Não consigo concluir a minha compra, fico no meio do caminho? Isso tudo é muito importante na conversa (…) porque no contexto de violência doméstica, de ignorar, de não colaborar, (o idoso) acaba não fazendo o que precisa fazer”, pondera Lilian.
Em situações que quem poderia ajudar não ajuda, a autoreclusão carrega um sentimento de vergonha e medo de falar e ser agredido com palavras ou com ameaças, levando quem precisa de auxílio a deixar de fazer perguntas básicas. A própria família, por sua vez, também não faz questão de interagir com aquela pessoa.
O digital pode ser sinônimo de ganho, mas, como em todas as fases da vida, o uso inadequado pode representar prejuízos, alerta a médica Daniela.
“O idoso pode ter ganhos cognitivos, no funcionamento cerebral e até intelectual. Pode ganhar mais interações. Mas tem que tomar cuidado para não exagerar e não ter prejuízo com piora da ansiedade, aumento da depressão, do isolamento. Fazer coisas repetitivas e deixar de viver outras coisas que estimulariam o cérebro, o corpo, a saúde como um todo”.
Mudança de paradigma
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o envelhecimento saudável passa pela capacidade da pessoa chegar à fase idosa com habilidade para tarefas que lhe são importantes – necessidades básicas, capacidade de decisões, mobilidade/autonomia, manutenção e construção de relações – além da percepção de sentir-se útil para a comunidade.
Na visão da atual presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção ES (SBGG-ES), Fernanda Sperandio Cott Paiva, a instituição da Década do Envelhecimento Saudável pela ONU trouxe mudança importante de paradigma.
“Antes, o envelhecimento era frequentemente associado apenas à doença, dependência e perda de autonomia. Hoje, o conceito de envelhecimento saudável vai além da ausência de doenças: ele envolve a manutenção da capacidade funcional, da autonomia, da participação social e da qualidade de vida”.
Para Fernanda, houve avanços significativos na conscientização da sociedade, com o tema passando a ocupar espaço nas discussões sobre saúde pública. “Também observamos maior valorização da prevenção, da atividade física, da alimentação adequada, da vacinação e do combate ao idadismo”.
Planejamento
O Brasil como sociedade tem um traço de “curto prazismo” (ênfase exagerada em resultados imediatos em detrimento dos interesses de longo prazo) marcante em diversos aspectos sociais, econômicos, políticos e na própria saúde. Frente a essa característica, reafirma-se o desafio em pensar a gestão da vida e o cuidado de longo prazo com os idosos.
“O envelhecimento exige planejamento de longo prazo, mas nossa cultura frequentemente privilegia soluções imediatas. Ainda investimos muito mais no tratamento das doenças do que na prevenção da perda funcional, na promoção da autonomia e na organização dos cuidados continuados. Muitas vezes, o paciente chega ao sistema de saúde quando já apresenta limitações importantes, o que torna o tratamento mais complexo e mais oneroso”, explica a presidente da SBGG-ES.
Para a especialista, a Década do Envelhecimento Saudável pode ser uma oportunidade estratégica para mudar esse modelo. “Investir hoje em prevenção, envelhecimento ativo, atenção primária e cuidado integrado significa reduzir incapacidades, internações e custos futuros, além de preservar qualidade de vida”.
Na opinião de Fernanda Sperandio, apesar de avanços na atenção primária, o principal desafio brasileiro é reorganizar o sistema de saúde para que ele seja centrado na pessoa e não apenas na doença.
“O idoso costuma apresentar múltiplas doenças crônicas, utilizar diversos medicamentos e necessitar de acompanhamento por diferentes profissionais. Quando esse cuidado não é integrado, ocorre fragmentação da assistência, duplicidade de exames, excesso de consultas e maior risco de eventos adversos, como internações evitáveis”, cita.
“O Brasil avançou em pontos importantes, especialmente com a expansão da Atenção Primária à Saúde e da Estratégia Saúde da Família, que ampliaram o acesso aos serviços e fortaleceram o acompanhamento longitudinal da população. Também houve maior incorporação da Avaliação Geriátrica Ampla e da discussão sobre cuidado centrado na funcionalidade em diversos serviços especializados”, complementa.
Fonte: POLÍTICA ES



































