O atropelamento de animais silvestres foi tema de reunião extraordinária da Comissão de Proteção e Bem-Estar dos Animais na noite desta terça-feira (26), na Assembleia Legislativa (Ales). Os participantes lamentaram a subnotificação dos registros de animais atropelados e sugeriram a criação de mecanismos como os faunodutos para evitar acidentes. Os faunodutos são estruturas como túneis e passarelas de corda construídas em rodovias e ferrovias para permitir a travessia segura de animais.
A deputada Janete de Sá (PSB), presidente do colegiado, destacou que os atropelamentos de animais nas rodovias geralmente acontecem à noite, quando eles circulam mais. “Não temos faunodutos (nas vias), o que ajudaria a evitar esses atropelamentos. Existe pouca conscientização das pessoas para reduzir esses atropelamentos. Estamos no Maio Amarelo, mês de conscientização do trânsito e a gente puxa (o tema) também para os animais”, disse.
Ela ressaltou que a BR-262 é uma das rodovias que mais têm animais atropelados no Espírito Santo, sendo, portanto, necessário criar mecanismos para evitar esses acidentes e dialogar com o governo federal, responsável pela via. Já sobre a BR-101, rodovia federal administrada por uma concessionária, Janete mencionou que existem alguns faunodutos que foram instalados depois de “muita luta”. Também frisou que, por cobrança dela, algumas novas vias rurais estão sendo construídas com faunodutos no estado.
A parlamentar apresentou dados do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia da Universidade Federal de Lavras (CBEE/UFLA) indicando que 475 mil animais silvestres são atropelados por dia no país, 15 animais mortos por segundo, mas 90% dos casos não entram em estatísticas oficiais. “Não se registra o número de animais atropelados no Estado, falta uma intervenção pública”, salientou.
Campanha de conscientização
A presidente do Instituto Ambiental Reluz, Renata Bomfim, falou que na reserva ambiental dela, localizada em Marechal Floriano, muitos animais recuperados são soltos para se reintegrar à natureza. Entretanto, eles acabam se deslocando para rodovias próximas, como a ES-470 e BR-262, onde correm riscos de serem atropelados. “A BR-262 é a que mais mata animais no país. É preciso ter um banco de dados para saber em quais pontos os animais morrem. Existe subnotificação dos dados (disponíveis)”, afirmou.
Diante desse cenário, desde 2019 o instituto promove o Reluz na Estrada, campanha de conscientização sobre o atropelamento de animais silvestres. A conscientização é feita com palestras nas escolas, abordagens junto aos motoristas, entre outras atividades.
Renata mostrou uma série de fotos de bichos atropelados no Espírito Santo e pediu a construção de passagens de fauna nas vias do estado para evitar a morte de animais silvestres. Cobrou, ainda, que as prefeituras disponibilizem um número para as pessoas ligarem quando encontrarem animais atropelados e a criação de um banco de dados com todos os registros.
Heloisa Carvalho, do Movimento Agroecológico de Santa Leopoldina, contou que em janeiro de 2025 adquiriu uma propriedade em Santa Leopoldina com a finalidade de fazer o reflorestamento com espécies nativas da Mata Atlântica e que nos deslocamentos para o local passou a constatar uma grande quantidade de animais atropelados nas rodovias ES-080 e ES-355.
Em março deste ano ela mesma passou a fazer um registro dos casos e, na reunião, apresentou um relatório detalhado das informações coletadas. Uma das soluções indicadas por Heloísa foi a colocação de quebra-molas em pontos onde acontecem os atropelamentos para forçar os motoristas a reduzirem a velocidade.
Ecologia de estradas
Tomás Rocha, doutorando em Biologia Animal pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pontuou que há uma disciplina chamada “Ecologia de Estradas”, que abrange várias áreas de conhecimento. Ele também citou estudos mostram que as mudanças climáticas afetam o comportamento dos animais.
“Existe uma seleção de animais que são atropelados ou não, o que impacta desde a questão da espécie até o impacto global. As estradas são o principal vetor de perda de diversidade no mundo”, enfatizou.
De acordo com ele, existe um número absurdo de animais atropelados em Sooretama (onde fica uma reserva cortada pela BR-101). “Setenta por cento da reserva fica de um lado, e 30% do outro. E ainda tem a reserva da Vale do lado. É um dos maiores fragmentos de Mata Atlântica do país. Temos, no Espírito Santo, uma pérola e estamos discutindo duplicar esse trecho ou não”, lamentou.
Limites de velocidade
Rocha falou que a velocidade permitida no local é de 60 km/h, mas mesmo trafegando dessa forma motoristas conscientes acabam atropelando animais de pequeno porte. “Não vão ver um sapinho de 2 cm no asfalto, ele vai ser atropelado e vai morrer, vai perder aquela espécie. Não é só uma questão de conscientização das pessoas, a gente precisa de infraestrutura e criação de normativas na hora da construção da estrada para evitar esses atropelamentos, Mitigar, hoje, é muito pouco”, frisou.
Também doutorando em Biologia Animal pela Ufes, Lucas Damásio sugeriu a criação de um fundo para a pesquisa sobre os atropelamentos dos animais. “Precisamos primeiro conhecer as espécies afetadas para depois colocar uma medida de mitigação para essas espécies. Existe grande subnotificação para os trechos estaduais. Precisa reduzir a velocidade, é demonstrado em vários locais do mundo. No Contorno do Mestre Álvaro querem aumentar de 80 para 100 km/h, é perigoso para os animais e para as pessoas”, alertou.
Rodolpho Barros, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV), foi mais um a criticar a falta de dados sobre atropelamentos de animais e de orçamento público para tratar desse tema. Para ele, a estrada em si não é o problema, mas onde o problema torna-se visível. Dessa forma, sugeriu a criação de um aplicativo para facilitar a notificação dos animais atropelados.
Katiúscia Oliveira, gerente de Bem-Estar Animal da Secretaria de Meio Ambiente (Semmam) de Vitória, pediu a realização de estudos sobre os atropelamentos e a criação de passagens para a fauna.
Ao final dos trabalhos, Janete fez uma série de apontamentos para evitar os atropelamentos, entre elas a sinalização das áreas críticas, como no Parque Estadual Paulo César Vinha, em Guarapari; a elaboração de campanhas permanentes de conscientização; a criação de corredores ecológicos, de protocolos de resgate dos animais e de um banco de dados sobre atropelamentos; a promoção de educação ambiental nas escolas; e a realização de um trabalho integrado entre Estado e municípios na busca de soluções.
Fonte: POLÍTICA ES





































