O município de Cachoeiro de Itapemirim recebeu, na quinta-feira (30), reunião da Frente Parlamentar dos Direitos das Pessoas com Transtornos Neurobiológicos, que debateu desafios e avanços na educação para famílias atípicas da região. O colegiado presidido pelo deputado Allan Ferreira (Podemos) convidou especialistas e representantes da educação pública e privada para discutir as principais demandas.
Um dos temas tratados como preocupante foi o Decreto Presidencial 12.686/2025, de 20 de outubro, que institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva. Para a gestora escolar na rede pública municipal, Simone Damasceno, há um alarde, em parte exagerado, sobre a norma, pois o decreto seria “redundante”, perpassando diretrizes da própria Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) e não uma ameaça ao trabalho de educação especial desenvolvido por entidades como Pestalozzi e Apae.
A gestora defendeu que a municipalidade de Cachoeiro cumpre a legislação da Inclusão, apesar de professores ainda sofrerem com falta de tempo na jornada para planejamento de aulas para alunos atípicos e com nível do apoio ao profissional cuidador.
“Nós temos que parar de muito ‘mimimi’ e partir efetivamente para falar do que consideravelmente precisa ser melhorado na educação, até atingir a criança e o pai, que o nosso público na verdade é esse, é a criança e a família. E os anseios dos pais atípicos para a escola são muito grandes, a família espera muito de nós, a família espera muito do professor. E o professor não sabe o que fazer, porque as salas são cheias”, desabafou.
“O decreto diz que o curso do professor tem que ser de 80 horas, mas todos os nossos professores que estão na sala de atendimento educacional especializado (AEE), eu tenho certeza que têm curso de 360 horas”, explicou.
Para a gestora, o poder público não pode negligenciar o papel que entidades como a Apae ainda cumprem na rede, pois “se eu não estou dando conta de atender toda a escola, outra pessoa precisa melhorar o apoio”. Ela ainda reforçou que “só a sala de recurso dentro da escola não dá conta”.
Apae
Representando o movimento das Apaes, a pedagoga Brunella Soares também ressaltou que é preciso combater as desinformações em torno do decreto, pois ele “não vai fechar as Apaes”.
A pedagoga fez um resgate histórico e até citou a fama que as Apaes tiveram no passado de segregarem crianças com alguma deficiência ou transtorno em suas salas especiais, mas ela explicou que há 17 anos essa perspectiva vem mudando e que o movimento no Espírito Santo é muito diferente da realidade de outras Unidades da Federação, pois, no caso capixaba, há credenciamento das entidades com a Educação estadual.
“O nosso estado foi o primeiro, em 2008, a trazer a inclusão. Então, nós estamos perpetuando há 17 anos a inclusão escolar. É o único estado que faz a inclusão. No Brasil afora, dentro das Apaes, existe a escola especial. Por que as Apaes estão tão preocupadas com essa questão? Porque elas só têm uma salinha e não são credenciadas com conselho estadual e nem com Secretaria de Educação”, comentou.
TDAH
Os desafios na inclusão escolar e na sociedade para pessoas com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Espectro Autista (TEA) foram abordados pela psicopedagoga clínica Priscila Sossai e pela psicóloga Ingrid Taliuli.
Com uma palestra sobre TDAH, Priscila Sossai defendeu que a sociedade precisa abandonar a confusão que ela faz sobre o transtorno mais estudado há quase um século e com mais informações sobre diagnóstico e necessidades.
“A gente não pode pensar que isso é meramente assim, virou moda, não pode confundir um transtorno do desenvolvimento com uma falta de limite ou uma falta de educação dentro de casa”, pontuou. Para a especialista, a sociedade precisa entender antes de julgar. “Quando a gente fala sobre a neurodiversidade, o termo veio para valorizar as diferentes formas de a gente pensar”.
Sobre os desafios para inclusão escolar, Priscila disse “que jogar uma criança dentro de uma sala de aula não é inclusão”. Ela explicou que o TDAH pode ser classificado em três tipos – o desatento, o inclusivo e o interativo – e que alguns casos podem “ter todos eles juntos”. “O que mais prejudica hoje uma pessoa que tem TDAH é a questão do foco, da organização, do controle e da impulsividade. E aí, quando a gente percebe isso, a gente tem que ter esse olhar de que não é falta de organização ou preguiça”.
Para uma inclusão escolar mais efetiva, a psicopedagoga defendeu melhores práticas parentais, capacitação de profissionais da educação, parcerias entre instituições e com a Saúde. “Tem que ter aulas específicas, criação de protocolos de acolhimento, de escuta e ações práticas como sala sensorial, tempo de pausa, flexibilização e avaliação”, citou.
Autismo
Dando mais ênfase ao TEA, a psicóloga Ingrid Taliuli reforçou que os dois grandes desafios para a inclusão de neurodiversidades ainda são família e equipes despreparadas – e a relação entre elas.
“A família não quer saber se você vai estar bem, quer só entregar a criança, colocar a criança na escola. Vai falar que o filho tem direito à escola sem exceção, sem saber se está valorizado, respeitado e se tem as mesmas oportunidades que a outra criança tem de aprender”.
A especialista defendeu que participar da escola vai além também da presença física, exigindo adaptação das necessidades individuais dessas crianças.
“E na fala do professor, o que é inclusão? É lindo na teoria, mas a prática não funciona assim. Nós temos que dar conta de 30 alunos, sendo que quatro têm necessidades especiais, com poucos profissionais preparados sendo auxiliares”. Ela afirmou que, na escola em que atua, a equipe conta com estagiários na função que deveria ser do profissional de pedagogia.
“Nós temos que entender que inclusão não é só para as crianças, mas para os pais também. Nós temos que entender a dor dessa mãe também. Porque tudo o que é novo assusta. E a gente está aprendendo também. As mães estão aprendendo e a gente aprende mais”.
Ingrid destacou que as principais dificuldades do autismo são: adaptação e flexibilidade; existência de mudança na rotina e necessidade de um ambiente estruturado e previsível; processamento sensorial, sensibilidade aumentada ou diminuída; e ainda os estimulos visuais ou sonoros.
A convidada explicou que, por ser um ambiente com excesso de estímulos, a sala de aula desafia o profissional a organizar tarefas secundárias e uma sequência lógica de atividade. ”A gente tem que ter um olhar voltado para essas crianças, porque cada um aprende de uma forma diferente. Então, é por isso que é muito difícil o professor dar conta de 30 alunos e mais 4 crianças autistas”, relatou.
Fonte: POLÍTICA ES







































