Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.
Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Ales realiza II Jornada Antirracista com foco na vida de jovens negros

Plano Juventude Negra Viva foi pauta na jornada / Foto: Lucas S. Costa e Mara Lima

publicidade

A urgente necessidade de pensar uma sociedade com equidade racial fez da Assembleia Legislativa (Ales) palco da II Jornada Antirracista de sua história. A tarde de sexta-feira (22) contou com oficinas, mesa de debate, feira preta, muita poesia, sessão solene e cortejo de banda de congo. O evento foi coordenado pela Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, presidida pela deputada Camila Valadão (Psol).

“Quando a gente pensou a primeira jornada, desde a edição passada, era exatamente construir uma ocupação negra na Assembleia. E quando a gente traz o tema da juventude, falando a juventude quer viver, é porque nós precisamos ter jovens, precisamos ter negros e negras, ocupando todos os espaços. Inclusive os espaços de poder”, explicou a deputada na ação de abertura da jornada. 

Fotos da II Jornada Antirracista 

Durante a abertura o presidente da Ales, deputado Marcelo Santos (Podemos), relembrou situação de racismo vivida pelo pai, Aloízio Santos, em que uma recepcionista de hotel na década de 1970 “só respeitou ele por conta da carteira dele, mas não respeitou o negro Aloízio”. O deputado também refletiu como a sociedade aborda e se refere ao povo negro nas situações mais corriqueiras.

“Isso tudo está enraizado na gente na forma de se expressar, e nós temos que mudar isso. E mudar isso é com a deputada Camila Valadão, que faz aqui essa segunda jornada muito bacana, que tem total apoio da Mesa da Assembleia (…), você pode ter certeza que você vai ter direito a voz, voto, manifestação, e vai poder fazer quantas vezes quiser e puder esses eventos bacanas enaltecendo a Assembleia”, afirmou Marcelo Santos.

Para a deputada Camila, o relato do presidente Marcelo Santos é reflexo de como a política ainda é um espaço embranquecido, “de como que os negros ainda são minoria nesses espaços”. “O nosso país é um país que tem muitos desafios. O primeiro desafio é garantir juventude negra viva (…) a juventude negra quer viver, porque esse país mata um jovem negro a cada 23 minutos”, atestou Camila. 

A promotora de Justiça Jessika Lima da Luz pronunciou-se na cerimônia de abertura representando o Ministério Público estadual (MPES). “Eu não gosto do termo adolescente infrator, porque infrator é o Estado, é a sociedade, é a família que fez esse adolescente chegar até ali. Então, eu falo que o adolescente está em conflito com a lei e a gente está lutando para que esse adolescente em conflito com a lei saia dessa situação e se junte à lei, nessa luta pela juventude. Nós temos perdido a nossa juventude para a morte e nós queremos nossa juventude negra viva, não queremos fazer estatística”, afirmou. 

Vidas negras 

Com o Plenário Dirceu Cardoso lotado de estudantes, a Mesa “Plano Juventude Negra Viva: ações para implementações no ES” foi o grande debate da tarde. Fizeram parte da mesa as deputadas estaduais Camila Valadão e Mônica Seixas (Psol-SP); a subsecretária de Políticas para a Juventude do governo do Estado, Cristhiany Miranda Macedo; as promotoras de Justiça (MPES) Renata Lordello Colnago e Jéssika Lima da Luz; o morador do Território do Bem e mobilizador social George Cirilo do Nascimento; a assistente social, diretora de Comunicação do Fórum Estadual da Juventude Negra do Espírito Santo (Fejunes) e delegada de Promoção de Igualdade Racial pelo Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Cepir), Ariadine Ferreira; e o doutorando em história e membro do comitê gestor da sociedade civil no Plano Juventude Negra Viva, Ariel Cherxes Batista.

Leia Também:  Deputado destaca queda de homicídios no início de 2025

Com temas transversais, o Plano Juventude Negra Viva (PJNV) é coordenado pelo governo federal. Tem por meta “a redução das vulnerabilidades que afetam a juventude negra brasileira e a violência letal alicerçada no racismo estrutural”. No debate ocorrido na Ales “o direito a viver” foi reafirmado com apontamento das mais diversas políticas públicas que ainda são falhas nas entregas efetivas para a juventude, e mais ainda para a juventude negra: segurança pública não-racista; acesso a trabalho; investimento em educação; saúde; acesso ao lazer, entre outras áreas.

“Como que a gente pode dizer para um jovem que ele tem que estudar, sendo que não tem nada na geladeira dele? Ou então que ele precisa trabalhar, sendo que no currículo dele não tem nada? Ou que é sem fundamental completo, por exemplo. (…) a gente tem que criar formas de se manter nessas instituições de ensino. E, no Brasil, jovens negros de 19 a 29 anos são principais vítimas de homicídio e exclusão. E têm três vezes mais chances de morrer do que um jovem branco”, alertou o morador do Território do Bem e co-gestor do Fórum de Juventudes do Território do Bem e co-fundador do Tec Perifa, George Cirilo do Nascimento.

Para a promotora de Justiça e coordenadora do Núcleo de Proteção dos Direitos da Juventude do Ministério Público do Estado do Espírito Santo, Renata Lordello Colnago, a discussão do Plano Juventude Negra Viva (PJNV) precisa ter um início racional, escutando principalmente a juventude que possa apontar dois ou três eixos mais urgentes.

Concordando com a promotora Renata, a jovem assistente social e delegada pela Cepir, Ariadine Ferreira, defendeu que debates sobre planos ainda precisam de maior didatismo, precisam, inclusive, permitir um “acesso” via “letramento e recorte racial”.

“A gente precisa trazer essas juventudes para dentro desses debates de uma maneira didática, porque assim, às vezes eu sinto que a gente fala muito sobre as políticas públicas, mas a gente usa palavras que são muitas vezes complexas. E a gente sabe que para ser didático, a gente não usa o academicismo, a gente não usa a maneira como é falado dentro da universidade”, refletiu Ariadine. 

Leia Também:  Projeto barra verba pública em evento que faça apologia ao crime

Ariadine considera o PJNV “um plano que tem dado certo”, mas o acesso ao debate poderia ser melhor.

“Foi uma galera que compareceu, que esteve presente, mas eu acredito que a gente precise possibilitar cada vez mais esse acesso. Possibilitar que esse jovem também chegue, porque a gente precisa também falar de mobilidade urbana (…). Não é só convocar uma plenária e esperar que a juventude chegue, é falar também sobre os acessos, mas como que chega? A mobilidade urbana funciona? É seguro para essa juventude?”, indagou.
Já a subsecretária de Políticas para a Juventude do governo do Estado, Cristhiany Miranda Macedo, revelou durante sua fala na mesa a real situação do plano.

“Relacionado ao Plano de Juventude Negra Viva, nós estamos já na fase final, deputada, para a assinatura desse documento, nós já estamos em diálogo com o Ministério da Igualdade Racial e com a Secretaria (…). A gente vê um plano que está escrito, que já está instituído e, infelizmente, nós só temos dois estados que assinaram como um projeto-piloto”, lamentou, referindo-se a Pernambuco e Ceará.

“Então, assim, nós já estamos em diálogo final para conseguirmos assinar aqui no estado mais um compromisso com as nossas juventudes, em específico com a nossa juventude negra, que como já falado aqui, não só nesse espaço, mas de outros espaços também, é a que mais morre”, explicou a subsecretária.

Oficinas

A programação da Jornada Antirracista também contou com a realização de três oficinas simultaneamente. Duas delas tiveram a cultura como foco: a ganhadora do SLAM ES, Adrielly Franklin, comandou a oficina de poesia falada. Já Karili Trindade conduziu a oficina “Produção Cultural para as Juventudes”.

O acesso à política de cotas foi tema abordado pela professora do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Jacyara Paiva. A educadora considerou que o acesso à universidade continua sendo um desafio para pessoas negras e pardas e debateu temas como a importância do conhecimento da política para alunos e pessoas que trabalham com a educação. “Não somos iguais e reconhecer que não somos iguais é vital para que nós sejamos, de fato, antirracistas”, afirmou.

Jacyara fez um resgate histórico, debatendo o início das ações afirmativas, que procuram reduzir as desigualdades de maneira equitativa. Outros pontos abordados na oficina foram o racismo estrutural brasileiro e a dificuldade de reconhecimento do povo sobre a persistência do racismo e o impacto disso para o aumento da desigualdade racial e do preconceito. 
 

Fonte: POLÍTICA ES

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade