Pessoas dormindo no chão das delegacias, vítimas de violência que desistem de denunciar seus agressores e espera de mais de 14 horas para atendimento. Essas foram algumas das situações relatadas por policiais civis, delegados, advogados e outros participantes da reunião da Comissão de Segurança realizada nesta terça-feira (30), no Plenário Dirceu Cardoso. O motivo: a demora no atendimento pela Central de Teleflagrante, unidade localizada em Vitória e responsável por todo o estado.
A Central de Teleflagrante permite, por meio de sistema de videoconferência, o atendimento 24 horas de ocorrências em todo o território capixaba. Todavia, segundo os participantes da reunião, a falta de efetivo policial vem prejudicando esse trabalho e causando grande demora, descontentamento da população e prejuízo para a resolução de questões que demandam urgência.
O policial civil Renato Mota, de Alegre, na regional sul, disse reconhecer a sobrecarga de trabalho dos policiais de Vitória que atendem todo o estado e afirmou que os agentes de segurança do interior estão sendo muito afetados com a lentidão. “Nós, que estamos na base, atendendo a população, estamos sofrendo muito com a demora de atendimento. Já tivemos casos de os envolvidos dormirem na recepção, no chão da delegacia”, contou.
Mota relatou ainda que mulheres vítimas de violência doméstica, às vezes, procuram a unidade em busca de medida protetiva, mas acabam desistindo devido à morosidade.
Policial civil em São Mateus, na regional norte, Francisco das Chagas concordou: “Está virando uma constante a demora no atendimento. Era normal esperar uma ou duas horas. Tem colega reclamando que estão demorando quatro horas”, disse.
O advogado Waldyr Loureiro contou que esperou quase 15 horas para ser atendido. Em maio deste ano, ele foi chamado para atender a uma situação em que houve vítima em um acidente de trânsito no município de Santa Teresa. O caso foi encaminhado para Aracruz, aonde ele chegou às 23 horas de um sábado e só conseguiu sair às 14 horas do domingo.
Segundo Loureiro, o episódio trouxe desgaste a policiais e advogados que aguardavam atendimento na Central de Teleflagrante. Enquanto isso, o município de Santa Teresa ficou sem efetivo policial, que estava em Aracruz acompanhando o caso.
O delegado Celso Ferrari, de Guarapari, sugeriu descentralizar o atendimento: “Enquanto tiver uma Central de Teleflagrante para atender todo o estado sempre vai haver esse problema da demora. Uma das soluções seria a regionalização do teleflagrante. Criar pelo menos mais uma no sul e uma no norte. Mas aí nós iríamos esbarrar na carência de pessoal”, comentou.
Pontos positivos
O coordenador da Central de Teleflagrante de Vitória, delegado Felix Meira, também participou dos trabalhos e fez a defesa da ferramenta.
De acordo com o responsável, o sistema capixaba é exemplo para outros estados da Federação: “O teleflagrante é uma inovação e os números demonstram que o projeto é eficiente e é bem visto dentro do Brasil. Já são mais de 150 mil procedimentos lavrados e mais de 45 mil autos de flagrante (desde 2021). Só em 2025, já lavramos mais de 10 mil procedimentos. E 94% dos autos de prisão em flagrante já saem relatados”, disse.
Conforme o delegado, a ferramenta “ajudou muito na investigação de situações mais qualificadas”. “É importante frisar que, com o teleflagrante, o poder investigativo da Polícia Civil se ampliou”, comentou.
Meira destacou que foi criado um setor de assistência social que faz contato com as mulheres que sofreram violência doméstica e já foram realizados mais de 11 mil encaminhamentos de vítimas.
Colegiado
O presidente da Comissão de Segurança, deputado Delegado Danilo Bahiense (PL), reforçou a questão da falta de efetivo, que “coloca em risco os policiais e os cidadãos”.
“O teleflagrante surgiu como uma importante solução tecnológica. Os delegados podem avaliar as prisões em flagrante de forma remota. Mas a tecnologia sozinha não resolve a situação. O teleflagrante é uma ferramenta valiosa, mas só vai ter resultado se for acompanhado de melhores condições de trabalho”, opinou.
As informações colhidas durante a reunião serão reunidas em um relatório que será encaminhado ao governo do Estado. O encontro contou com a presença dos deputados Coronel Weliton (PRD) e Mazinho dos Anjos (PSDB), além de vários representantes das forças estaduais de segurança, que participaram também de forma remota.
Fonte: POLÍTICA ES








































